
Um Espaço para a Ciência. A formação da comunidade científica
no Brasil
Publicado en ComCiência, Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, 10/09/01
Simon Schwartzman. Brasília: MCT/CNPq/CEE, 2001. Reedição.
por Bruno Buys
Este livro resgata as origens da formação da comunidade científica no Brasil,
através de uma pesquisa feita em duas frentes: entrevistas com cerca de 70 cientistas
(que desempenharam papéis importantes na história da ciência brasileira) e coleta
da bibliografia existente até então, a respeito da história de nossa ciência.
O resultado final
foi publicado no Brasil somente para iniciados: não teve uma tiragem comercial,
tendo sido distribuído em bibliotecas e enviado para especialistas e cientistas.
Um nova versão em língua inglesa foi preparada em 1991 e publicada pela
Pennsylvania State University Press, nos Estados Unidos. O livro ora resenhado
é uma tradução desta edição inglesa, editado pelo Ministério da Ciência
e Tecnologia - Centro de Estudos Estratégicos, em 2001.
Este livro merece
uma ampla tiragem comercial, dada a importância do tema que abriga. A história
do desenvolvimento científico e tecnológico do nosso país é resgatada, com
uma ênfase especial nas instituições científicas que a protagonizaram. Porém,
também muito importante, o autor atenta para os movimentos de pessoas entre
estas instituições e para a importância que a troca de conhecimentos e de
experiências teve no estabelecimento de nossa atual infra-estrutura de pesquisa
e pós-graduação.
Um Espaço para
a Ciência trata desde os primeiros desenvolvimentos ainda no século XIX,
no Rio de Janeiro - então capital do Império -, impulsionados pela vontade
real, até a criação da Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia
(Coppe) e da Universidade de Campinas (Unicamp), durante o período de ditadura
militar.,
A esmagadora maioria
de nossas instituições pioneiras de pesquisa foi fundada e concentra-se
no eixo Rio - São Paulo: o Instituto Agronômico de Campinas (1887); o Instituto
Vacinogênico (1892); o Instituto Bacteriológico e o Museu Paulista (1893);
o Instituto Butantã (1899); em 1900, o Instituto de Manguinhos, fundado
no Rio de Janeiro, para pesquisa biomédica. Estes foram os principais atores,
responsáveis pela maioria da ciência produzida no Brasil até a década de
30. Exceção apontada pelo autor à concentração no sudeste, seria o Museu
Paraense Emílio Goeldi.
O autor explora
alguns aspectos muito interessantes desta relação, como por exemplo, o apoio
dado ao desenvolvimento científico pelos sucessivos governos federais desde
o império até a ditadura de 64, passando por uma interessante análise a
respeito de Getúlio Vargas. Os diversos projetos para transformar o Brasil
em grande nação - que tiveram muito apoio nos regimes militares - colocaram
certa ênfase no desenvolvimento científico. A Unicamp e a Coppe, como já
dito, nasceram durante o regime militar- duas instituições de inquestionável
importância no panorama de nossas instituições de pesquisa.
O surgimento e
o crescimento da USP, a partir de 1934, assim como as articulações políticas
que lhe deram vida, são retratados com riqueza de detalhes, junto com breves
considerações sobre este período (a década de 30), quando São Paulo toma
a dianteira em relação ao Rio de Janeiro na pesquisa científica. Diz o autor,
que o Rio dispunha, para seus jovens estudantes, de um ambiente rico em
debates não só científicos como também políticos, econômicos e sociais.
Ao mesmo tempo, na então capital do país, assistia-se nascimento de uma
grande valorização da atividade intelectual e científica. O Rio de Janeiro
oferecia mais prestígio a quem estava ingressando na carreira. Porém, São
Paulo, que já possuía na época uma economia mais dinâmica e pujante, oferecia
melhores empregos e salários. São Paulo era ainda uma província, um lugar
onde as coisas estavam começando.
Conclui o autor
em um epílogo levemente otimista e um tanto austero. "Há muito mais ciência
e tecnologia no Brasil de hoje do que havia a apenas vinte anos; mas é verdade
também que um espaço para a ciência, em termos de papéis científicos socialmente
definidos, aceitos e institucionalizados, é ainda escasso. Quando muito
há ilhas de competência, nichos em que a ciência pode desenvolver-se durante
algum tempo, mas sempre de modo precário e ameaçada por um ambiente pouco
amistoso."
A inserção da
comunidade científica no seio da sociedade brasileira e o reconhecimento
de sua importância ainda hoje são um assunto em aberto. E o presente momento
é especialmente interessante para esta questão, uma vez que nos preparamos
para a Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, setembro,
em Brasília.
É impressionante
que, na véspera de uma conferência onde deveremos traçar rumos e diretrizes
para nossa ciência para os próximos dez anos, ainda tenhamos dificuldades
estruturais tão grandes quanto estas. Talvez esta falta de espaço para a
ciência, este não-reconhecimento do valor da pesquisa, formem uma parcela
daquilo que o jornalista e historiador da ciência Ulisses Capozoli tem chamado
de "nossa herança ibérica."
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