MODERNIDADE E POLÊMICAS

Fábio Wanderley Reis

Resenha de Simon Schwartzman, Pobreza, Exclusão Social e Modernidade: Uma Introdução ao Mundo Contemporâneo, São Paulo, Augurium Editora, 2004, 239 páginas.

Simon Schwartzman escreveu um livro muito útil, que propicia de modo excelente o que promete em seu subtítulo: uma introdução ao mundo contemporâneo. Tratando do tema complexo, e eriçado de polêmicas, da conexão entre pobreza ou exclusão social e modernidade, o autor divide o trabalho em três partes: (1) “as raízes”, em que se examinam velhas questões como as causas da riqueza e da pobreza e suas ligações com temas como capitalismo e colonialismo, por um lado, e cultura, por outro; (2) “globalização”, em que a discussão recobre os problemas trazidos pelas novidades econômico-tecnológicas do período recente, a implantação de uma “sociedade do conhecimento” e suas consequências para o mundo do trabalho; e (3) “ação”, em que os temas são cidadania e direitos humanos, as perspectivas relacionadas com idéias como a do “choque das civilizações” ou a do “fim da história” e o desafio das reformas econômicas e sociais e seus desdobramentos políticos.

O livro se distingue antes pelo empenho de informar sobre a literatura clássica e recente dedicada à variedade de temas pertinentes, bem como sobre as polêmicas que nela se renovam, do que pelo de “resolver” as questões ou defender a respeito delas uma posição pessoal. Nisso se revelam as origens do trabalho, relatadas no prefácio: um curso ministrado para estudantes norte-americanos no primeiro semestre do ano corrente. Simon Schwartzman sustenta, porém, que a perspectiva adotada no curso e no livro seria peculiar (e melhor que a que normalmente se encontra) pelo equilíbrio entre a preocupação de “incorporar o riquíssimo acervo de pesquisas hoje existente”, de um lado, e, de outro, a de prover “um marco de referência mais amplo que lhes confira sentido e transcenda fronteiras disciplinares”. O resultado certamente justifica o reclamo: temos não só a revisão clara e informativa de diversificada bibliografia técnica recente sobre áreas como educação, pobreza urbana, trabalho ou “capital social”, por exemplo, mas também o plano em que nomes como os de Adam Smith, Malthus, Hegel, Marx, Durkheim e Weber se combinam com os de V. S. Naipaul, Octavio Paz ou Gilberto Freyre, sem falar das teses ousadas e momentosas de um Francis Fukuyama ou um Samuel Huntington.

No deliberado distanciamento e em certa frieza quanto aos temas “quentes” de que trata, contudo, estará talvez o ponto fraco do livro – se se quiser, o defeito de suas virtudes. Conduzido pela mão de Schwartzman a inumeráveis problemas de desanimadora complexidade e dificuldade, o leitor não pode senão cansar-se um pouco – e frustrar-se – diante da maneira breve e ligeira com que é reiteradamente convidado a uma posição de equilíbrio face aos enfrentamentos envolvidos. Talvez caiba esperar que o estudante, ou quem quer que se inicie nos temas discutidos, seja assim levado a buscar novas leituras, a começar pelas muitas indicadas, e a embrenhar-se por si próprio nos problemas: a introdução terá então cumprido o seu papel. Mas cabe também indagar se mesmo uma obra introdutória não deveria atrever-se a ser mais afirmativa, buscando elaborar com alguma pertinácia os argumentos capazes de fundar a tomada de posição quanto às questões importantes em jogo e assim provendo um ponto de referência mais sólido mesmo para o estudante, que pode, se for o caso, vir a encontrar razões para distanciar-se dele ao amadurecer no trato dos problemas.

Essa exortação a uma disposição mais inclinada à afirmação e ao debate conseqüente se justifica de modo especial pelo fato de que o empenho de equilíbrio por parte do autor não impede que suas preferências transpareçam com bastante clareza. A propósito de formas diversas em que se manifesta, ao longo do livro, a tensão fundamental entre uma perspectiva racionalista e universalizante e outra relativista e talvez “pós-moderna”, sensível aos múltiplos condicionamentos culturais e atenta à riqueza dos recursos por eles fornecidos, Simon Schwartzman deixa entrever repetidamente que a segunda é que tem sua simpatia, o que acaba dito de maneira explícita no capítulo dedicado a cidadania e direitos humanos. Eu próprio, disposto a defender posição distinta, em que os valores pluralistas se associam com autonomia individual e supõem a capacidade de “descentração” cognitiva e moral dos indivíduos perante a coletividade como fundamento da tolerância como virtude cívica por excelência (por certo uma “cultura”, mas de feição peculiar, ainda que caiba discutir se será exclusiva ou originariamente “ocidental”), fico a imaginar os ganhos que poderia extrair do eventual confronto com os argumentos do autor levados a um ponto de maior fruição. <