
FORMAÇÃO DA
COMUNIDADE CIENTIFICA NO BRASIL, Simon Schwartzman, Nacional/ Finep,
482 pp. 148,00
comentário de Jorge Leal
Ferreira, Leia Livros, agosto de 1979.
Trata-se aqui de uma publicação da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP),
empresa pública que tem por objetivo estimular as pesquisas cientifica e
tecnológica no país.
O propósito da obra é apresentar uma história da ciência no Brasil a época
relativamente recente. Teve como ponto de partida projeto da FINEP sobre
a história social da ciência contemporânea no país, e incorpora depoimentos
prestados por dezenas de cientistas brasileiros de diferentes gerações,
os que se formaram nas décadas de 10 e 20, os que se graduaram antes da
guerra e aqueles que entraram no cenário cientifico nacional na década de
50. Esses depoimentos, que permeiam a obra, versaram sobre a formação do
cientista, sua formação universitária, seu aprendizado no exterior, seu
trabalho de pesquisa, sua vivência nas instituições, seus sucessos e fracassos,
e temas mais gerais como a natureza da atividade cientifica e o ambiente
cientifico no Brasil.
Trata-se realmente, como afirma o autor (que foi o coordenador do projeto)
de um material de valor por espelhar, em alguma medida, o pensamento de
um bom número de cientistas de renome, sua vivência cientifica, motivações
anseios e intuições. Reconhece o autor as limitações desses depoimentos
que, aliás, são de caráter geral por haver sempre o lado pessoal na escolha
daquilo que se considera importante. Afinal, não têm todos os cientistas
a mesma concepção acerca da ciência, sobre o valor e limitações de sua metodologia,
e sobre o papel que ela desempenha na saciedade em que é produzido. Coma
escreveu Albert Einstein, " se você quiser saber, dos fisicos teóricos,
o que pensam sobre as métodos que utilizam em seu trabalho, aconselho que
siga à risca o seguinte preceito: ao invés do que dizem, veja o que fazem.
"
Os depoimentos se limitaram às ciências naturais (as chamadas ""hard sciences
" i.é., as ciências difíceis"): física, química, biologia e geociência (o
que parece ter relegado a matemática ao almoxarifado das ciências fáceis).
A escolha pode, em parte pela menos, ter sida motivada pela importância
dos subprodutos tecnológicos que eles geram.
A maior parte da obra é dedicada à história das instituições científicas
do país, entre elas o Observatório Nacional, a Escola Politécnica (RJ),
o Instituto Biológico e a USP, esta a mais favorecida. História que suspeitamos
não fazer parte da bagagem cultural da maioria das cientistas brasileiros.
A questão "ciência e desenvolvimento "é tratada de maneira bastante convencional.
É interessante, todavia, se aprender que, na década de 50, o pensamento
dominante nos meios intelectuais do país era, aparentemente, que a ciência,
o progresso e a modernização viriam juntos com os novos tempos. Ora, todo
mundo sabe que a modernização veio mesma, às catadupas, pegando desprevenidos
alguns idealistas (p. ex., esse tipo de gente que ainda lê os Diálogos
de Platão). Automóveis em massa, agências bancárias também em massa (Algumas
com ajuda do Criador), TV, shampoos, detergentes e discotecas, e tantas
outras que se tornaram imprescindíveis na exacerbação do consumo máxima.
E a maioria da povo brasileiro continua bem favorecida pelo consuma mínimo,
que purifica a alma mas que conduz, freqüentemente, a resultados desastrosas
para seu metabolismo.
Embora a ciência seja imprescindível nas sociedades modernas, ela, socialmente,
não basta por si mesma (por que, prezado leitor?) Mas há quem pense diferente.
Segundo o dirigente iugoslavo Stevan Dedijer (citado no livro), a "ciência
é a chave do futuro". O que torna tudo maravilhosamente simples. No que
diz respeito ao futuro, esperamos que essa chave não seja enfiada na porta
errada.
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